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Vinho branco ganha espaço no Brasil e amplia oportunidades para o foodservice

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Categoria avança em um mercado de R$ 21,1 bilhões e pode estimular restaurantes a rever serviço em taça, harmonizações, ocasiões de consumo e composição da carta

O mercado brasileiro de vinhos chega ao último trimestre de 2026 com crescimento em valor, maior diversidade de oferta e mudanças na composição do consumo. Em 2025, vinhos e espumantes movimentaram aproximadamente R$ 21,1 bilhões no país, avanço de cerca de 9% sobre o ano anterior, segundo dados da Ideal BI. O abastecimento chegou a 54,5 milhões de caixas de nove litros, com crescimento próximo de 8%.

A expansão também aparece nas categorias escolhidas pelo consumidor. Os vinhos brancos estão entre os principais destaques recentes. Dados da Ideal BI divulgados ao longo deste ano apontaram crescimento de 18% na comercialização da categoria, acima dos tintos, com 2%, e dos rosés, com 4%. Outro recorte da consultoria, comparando o primeiro trimestre de 2025 com o último trimestre de 2024, chegou a registrar avanço de 28% para os brancos.

A tendência volta ao centro das discussões nesta semana com a ProWine São Paulo, que acontece de 6 a 8 de outubro no Expo Center Norte. A edição de 2026 será a maior desde a criação da feira: mais de 2 mil produtores de 37 países ocuparão, pela primeira vez, dois pavilhões. O evento é voltado exclusivamente ao mercado profissional e reúne importadores, distribuidores, sommeliers, varejistas e compradores de bares e restaurantes.

Para o foodservice, porém, o ponto mais interessante não está apenas em saber que uma categoria está crescendo. Está em entender quais ocasiões podem estar se abrindo para ela.

O crescimento do branco não significa simplesmente uma troca de preferência

O vinho tinto continua tendo grande presença no mercado brasileiro. O avanço dos brancos, portanto, não precisa ser interpretado como uma substituição direta.

Há uma leitura mais útil para restaurantes: o vinho pode estar chegando a situações em que anteriormente era menos presente.

A diretora da ProWine São Paulo, Malu Sevieri, relaciona parte do avanço dos brancos ao clima e à gastronomia brasileira e aponta a categoria como a que apresenta atualmente maior crescimento percentual. Segundo ela, enquanto os brancos avançam, os rosés permanecem mais estáveis e os tintos apresentaram pequena retração de 1,4% no recorte mais recente citado pela feira.

Essa combinação é relevante porque os estilos brancos costumam oferecer características que permitem trabalhar diferentes contextos gastronômicos: acidez, frescor, possibilidade de serviço a temperaturas mais baixas e diversidade de perfis, dos mais leves e aromáticos aos vinhos com maior estrutura.

Para um restaurante, isso pode significar pensar menos em “vinho para o jantar” e mais em diferentes momentos nos quais a bebida pode participar da experiência.

Almoço de fim de semana, happy hour, menus de verão, pratos de pescados e frutos do mar, culinárias asiáticas, entradas, queijos e propostas de compartilhamento podem criar contextos distintos para o consumo.

Isso não significa que exista uma harmonização universal para cada categoria. Significa que uma carta construída apenas em torno dos tintos pode deixar de representar a variedade de situações em que o cliente está disposto a beber vinho.

O consumo brasileiro cresceu, mas os números precisam ser comparados com cuidado

O aumento do interesse pelo mercado brasileiro também aparece nos indicadores de consumo, embora existam diferenças metodológicas importantes entre as fontes disponíveis.

A Ideal BI calcula consumo de aproximadamente 3 litros de vinho por adulto no país em 2025. Outra divulgação da própria ProWine utiliza o indicador de três litros por pessoa ao ano e aponta crescimento próximo de 7%.

Já a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) estimou consumo brasileiro total de 4,4 milhões de hectolitros em 2025, com forte crescimento sobre o ano anterior. As metodologias não são diretamente equivalentes, portanto esses indicadores não deveriam ser combinados para formar uma única série histórica.

O que aparece de forma mais consistente nas diferentes bases é a retomada do mercado em 2025, tanto em valor quanto em volume, ao mesmo tempo em que o consumidor passa a encontrar um portfólio mais diversificado.

Para o foodservice, essa evolução importa porque o crescimento do mercado aumenta o número de consumidores potenciais, mas não elimina as barreiras que historicamente dificultaram o vinho no restaurante: preço da garrafa, pouca familiaridade com os rótulos e receio de fazer uma escolha inadequada.

A taça pode ser tão importante quanto a garrafa

Se o objetivo é ampliar as ocasiões de consumo, a construção da oferta precisa acompanhar essa mudança.

Um cliente pode não querer comprar uma garrafa inteira durante o almoço, mas aceitar uma taça. Pode estar interessado em experimentar um branco diferente sem assumir o preço de 750 ml ou simplesmente estar sozinho enquanto os demais integrantes da mesa escolhem outra bebida.

Nesse contexto, uma seleção por taça pode diminuir a barreira de experimentação.

Para o restaurante, entretanto, a estratégia precisa considerar giro. Uma carta extensa por taça pode gerar perdas quando as garrafas abertas não vendem na velocidade necessária para preservar a qualidade do produto.

O número ideal de opções depende do fluxo do estabelecimento, do perfil do público e do cardápio. Em muitos casos, poucos rótulos com funções claras — um branco de entrada, outro com perfil mais gastronômico, um tinto, um espumante — podem produzir mais resultado do que uma variedade que a equipe tem dificuldade de vender e a operação não consegue girar.

O avanço dos brancos pode ser utilizado justamente para revisar essa composição.

A carta também pode ajudar a construir ocasião

Normalmente, a carta é pensada para acompanhar aquilo que o cliente já decidiu comer. Mas a relação também pode funcionar no sentido contrário.

Uma seleção bem construída ajuda o restaurante a apresentar outras formas de consumir vinho.

Um branco disponível em taça pode ser indicado junto a uma entrada. Um espumante pode ganhar espaço no happy hour. Um rótulo de maior acidez pode acompanhar determinado prato de almoço. Um menu sazonal pode ter uma sugestão específica que diminua o esforço do cliente para decidir.

Nesse caso, a venda não depende apenas da quantidade de opções disponíveis, mas de como elas são apresentadas.

Descrições excessivamente técnicas podem afastar consumidores que ainda estão formando repertório. Termos mais ligados ao perfil sensorial e à ocasião — mais fresco, mais aromático, mais encorpado ou indicado para determinado prato — podem facilitar a escolha sem retirar profundidade do serviço para quem deseja mais informação.

A equipe tem papel importante nesse processo. Uma carta de dez rótulos que o atendimento conhece bem pode gerar uma experiência melhor do que uma seleção de 50 garrafas sobre as quais quase ninguém consegue orientar o cliente.

Mais oferta deve chegar ao mercado brasileiro

A ProWine ajuda a mostrar como mudanças percebidas no restaurante começam muito antes da abertura da garrafa.

Mais de 2 mil produtores estarão reunidos na edição de 2026, com representações de mercados consolidados como Portugal, Espanha, Itália, França, Chile e Argentina, além de origens com presença menor no Brasil.

Em 2025, a feira recebeu mais de 20 mil visitantes profissionais e mais de 1.500 marcas. A organização calcula que aproximadamente 87% do público era formado por pessoas com poder de decisão dentro das empresas participantes.

Esse caráter B2B ajuda a entender como a variedade disponível ao consumidor se transforma.

Um importador encontra um produtor que ainda não possui distribuição relevante no país. Um distribuidor incorpora uma nova região ao catálogo. Redes e restaurantes experimentam os produtos e decidem quais fazem sentido para seus públicos.

O que aparece meses depois na carta de um restaurante é resultado de uma sequência de decisões anteriores da cadeia.

Para os brancos, a ampliação da oferta pode acelerar um movimento que já estava em curso. Mais origens, uvas e faixas de preço oferecem aos operadores possibilidades maiores de construir cartas que não dependam apenas das categorias mais tradicionais.

Vinho sem álcool cresce como pauta, mas ainda pede cautela na leitura

Outro movimento visível na ProWine deste ano é a maior presença de vinhos com baixo teor alcoólico ou sem álcool.

A organização da feira relata aumento na disponibilidade desses produtos no varejo brasileiro e diferentes expositores chegam ao evento com lançamentos nessa categoria. A Henkell Freixenet, por exemplo, anunciou seis rótulos zero álcool entre os destaques apresentados em 2026.

O movimento também acompanha uma tendência internacional mais ampla. A IWSR aponta crescimento da demanda global por vinhos sem e com baixo teor alcoólico, especialmente entre consumidores mais jovens, embora fatores como preço, sabor e percepção de qualidade ainda representem obstáculos à expansão.

No Brasil, entretanto, é importante não extrapolar essa tendência.

A IWSR projeta crescimento médio anual de aproximadamente 10% em volume para a categoria de bebidas sem álcool no país entre 2024 e 2028, mas indica que praticamente todo esse avanço deve vir da cerveja sem álcool. Portanto, ainda há menos evidências de escala para afirmar que o vinho zero já acompanha o mesmo ritmo no mercado brasileiro.

Para restaurantes, a categoria pode ser observada como uma possibilidade de ampliar escolha, especialmente em mesas onde diferentes pessoas mantêm relações distintas com o álcool. Mas a entrada na carta precisa seguir a mesma lógica dos demais produtos: demanda, margem, giro e adequação ao perfil do estabelecimento.

Ampliar a carta não é necessariamente a melhor resposta

O crescimento do mercado pode criar a impressão de que restaurantes precisam aumentar rapidamente a quantidade de rótulos oferecidos.

Nem sempre.

Cada nova garrafa representa capital em estoque, necessidade de espaço e condições adequadas de armazenamento, além de uma nova informação que a equipe precisa dominar.

Uma carta muito ampla e de baixo giro pode ser menos eficiente do que uma seleção menor, atualizada com frequência e construída a partir do comportamento real do consumidor.

Para avaliar uma possível revisão, alguns dados internos ajudam mais do que simplesmente acompanhar tendências nacionais: participação dos brancos nas vendas de vinho da casa, desempenho por taça e garrafa, ticket médio, horários de consumo, pratos mais frequentemente associados à bebida e tempo médio de permanência de cada rótulo no estoque.

O restaurante também pode testar antes de ampliar.

Um branco pode entrar temporariamente na seleção por taça, acompanhar um menu especial ou ser apresentado em uma ação de harmonização. A resposta do público oferece uma referência concreta sobre o potencial de permanência.

O serviço precisa acompanhar a mudança da carta

Os vinhos brancos também adicionam questões operacionais específicas.

Temperatura de serviço, espaço refrigerado e velocidade de reposição precisam estar previstos antes de aumentar a quantidade de rótulos. Uma operação que acrescenta opções, mas não consegue mantê-las nas condições adequadas, transforma variedade em um problema de experiência.

O mesmo vale para treinamento.

Quando os brancos deixam de ocupar uma posição secundária, a equipe precisa conseguir explicar diferenças básicas entre estilos e orientar o cliente conforme o prato, preço e preferência, sem transformar cada pedido em uma aula de enologia.

Esse equilíbrio é especialmente importante para estabelecimentos nos quais o vinho não é o centro da proposta. O cliente precisa de informação suficiente para escolher com segurança, mas o serviço deve continuar compatível com a dinâmica da casa.

Primavera e verão criam uma janela para testar novas ocasiões

O momento do ano também favorece a análise.

Com a aproximação dos meses mais quentes, restaurantes podem observar se a procura por brancos, rosés, espumantes e bebidas servidas frias muda dentro da própria operação.

Não é necessário assumir antecipadamente que toda a demanda migrará para essas categorias. O comportamento varia conforme cidade, perfil de cliente, gastronomia e ocasião.

Mas o crescimento nacional dos brancos cria uma boa hipótese para ser testada.

Se a participação da categoria aumenta no almoço, se determinadas taças têm boa saída em dias quentes ou se uma harmonização específica eleva a venda de determinado prato, essas informações ajudam a construir a carta dos próximos meses com base no que efetivamente acontece no estabelecimento.

Mais importante do que ter mais vinhos é criar uma seleção que venda

O mercado brasileiro de vinhos cresceu em 2025, movimentou R$ 21,1 bilhões e continua atraindo produtores de diferentes países. Dentro desse cenário, o avanço dos brancos é um dos sinais mais claros de diversificação das escolhas.

Para o foodservice, a oportunidade não precisa resultar em cartas maiores.

Pode aparecer em uma oferta mais adequada ao almoço, em uma seleção melhor por taça, em combinações que facilitam a escolha do consumidor ou simplesmente na revisão de uma carta ainda excessivamente concentrada em tintos.

O ponto central é entender que crescimento de categoria e oportunidade para um restaurante não são a mesma coisa. O primeiro acontece no mercado; a segunda depende de encontrar um papel para aquele produto dentro da experiência e da economia da casa.

À medida que o vinho brasileiro se diversifica, a vantagem para o restaurante estará menos em acompanhar cada lançamento e mais em reconhecer quais mudanças de consumo fazem sentido para seu público. Uma boa carta não é necessariamente a que oferece mais rótulos, mas aquela em que cada garrafa — ou taça — tem uma razão para estar ali.