Pedidos cresceram 15% em um ano no iFood e mostram que o hambúrguer deixou de ocupar apenas o jantar para disputar novos horários — mas tamanho do mercado também significa concorrência crescente.
O hambúrguer pode ter deixado há tempos de ser novidade no foodservice brasileiro, mas isso não significa que tenha perdido força.
Entre maio de 2025 e abril de 2026, o iFood registrou mais de 150 milhões de pedidos de hambúrguer, crescimento de aproximadamente 15% sobre o período anterior, quando foram contabilizados cerca de 130 milhões.
A plataforma informa ainda possuir aproximadamente 230 mil hamburguerias cadastradas.
É um retrato expressivo do tamanho da categoria.
Mas talvez o dado mais interessante esteja menos no total de pedidos e mais em quando eles acontecem.
O hambúrguer começa a ocupar novos horários
O jantar continua sendo o principal momento da categoria.
Mais de 80% dos pedidos registrados pelo iFood acontecem à noite, com pico próximo das 20 horas.
Mas outros períodos apresentaram crescimento relevante.
Segundo dados do iFood Tendências divulgados em maio, os pedidos no horário do almoço cresceram 21%, enquanto o lanche da tarde avançou mais de 46%, com pico por volta das 17 horas.
Esse movimento sugere que o hambúrguer passa a disputar ocasiões que antes eram menos associadas à categoria.
Ele pode ser jantar, mas também almoço rápido, lanche no meio da tarde ou refeição de conveniência.
Para as hamburguerias, isso abre oportunidades — e novas perguntas.
O mesmo produto funciona para todos esses horários? O ticket desejado no jantar funciona durante o almoço? Há espaço para tamanhos, combos ou formatos específicos?
Mercado grande também significa mercado disputado
Existe outro lado nos números.
Se há milhões de pedidos, também existem milhares de operações tentando conquistá-los.
Em categorias maduras, diferenciação deixa de depender apenas de participar de uma tendência.
Ter pão brioche, smash burger, molho próprio ou ingredientes premium, por exemplo, já não garante sozinho uma posição distintiva.
Produto continua sendo fundamental, mas passa a dividir espaço com marca, preço, experiência, velocidade, consistência e relacionamento.
No delivery, a disputa ganha outra camada.
Fotografia, avaliação dos consumidores, tempo de entrega, promoções, embalagem e posicionamento dentro da plataforma podem influenciar tanto quanto o próprio lanche na decisão inicial.
Menos excesso, mais execução
Também existem sinais de mudança no próprio produto.
Reportagem da CNN Brasil sobre o momento atual do hambúrguer apontou uma movimentação em direção a construções menos excessivas, maior atenção à qualidade dos ingredientes e valorização de técnica e execução.
Isso não significa o fim dos hambúrgueres grandes ou indulgentes.
Significa que a categoria se tornou suficientemente ampla para comportar públicos diferentes.
Smash, clássico, artesanal, premium, econômico, vegetariano, autoral e regional convivem dentro do mesmo mercado.
Nesse cenário, entender quem é o cliente da operação passa a ser mais relevante do que simplesmente acompanhar cada novidade.
Delivery é canal — não estratégia inteira
O tamanho dos números registrados pelo iFood comprova a importância das plataformas no setor.
Mas depender exclusivamente delas também cria riscos.
Comissões, custo de aquisição, promoções, logística e pouca relação direta com o consumidor podem reduzir a capacidade da operação de controlar sua margem e construir recorrência.
Para muitas hamburguerias, o desafio está em equilibrar marketplace e canais próprios.
A plataforma oferece alcance e descoberta.
O relacionamento direto pode oferecer recorrência, dados do cliente e mais autonomia comercial.
Não é necessariamente uma escolha entre um ou outro.
É uma decisão sobre como cada canal participa do negócio.
Depois do boom, vem a profissionalização
O hambúrguer já passou pela fase em que abrir uma operação artesanal era, por si só, uma novidade.
Agora, o tamanho alcançado pelo mercado cria um desafio diferente.
Quando todos podem vender hambúrguer, vencem espaço as operações que conseguem executar melhor.
Isso envolve ficha técnica, padronização, treinamento, custos, tempo de produção, embalagem, atendimento, posicionamento e leitura constante dos números.
Os 150 milhões de pedidos mostram que demanda existe.
Mas 230 mil operações cadastradas em uma única plataforma lembram que a concorrência também existe.
O próximo capítulo do mercado de burger brasileiro provavelmente será menos sobre descobrir o produto e mais sobre profissionalizar o negócio.


