Estudo desenvolvido pelo iFood em parceria com a WGSN aponta maior curiosidade por sabores intensos, influência crescente das redes sociais e uso da inteligência artificial dentro das operações.
O comportamento de consumo no foodservice brasileiro está ficando mais fragmentado. De um lado, o consumidor controla melhor os gastos; de outro, demonstra interesse crescente por sabores diferentes, experiências mais sofisticadas e produtos que ganham visibilidade rapidamente nas redes sociais.
Um novo estudo desenvolvido pelo iFood em parceria com a WGSN tenta organizar alguns desses movimentos. O relatório completo será apresentado durante o iFood Move 2026, nos dias 16 e 17 de setembro, mas resultados antecipados já apontam mudanças relevantes para restaurantes e marcas de alimentação.
Entre os temas estão inteligência artificial aplicada à operação, crescimento da busca por umami e sabores mais complexos, influência de conteúdos virais, valorização de culinárias regionais e maior interesse por experiências consideradas premium também no delivery.
Mais do que uma lista de tendências, os dados ajudam a perceber como referências antes separadas começam a se encontrar no mesmo consumidor.
O paladar ficou mais aberto à complexidade
Segundo o relatório, 72% dos usuários do iFood afirmam que o próprio paladar ficou mais complexo nos últimos anos. Essa percepção aparece na procura por sabores defumados, combinações agridoces, preparos picantes e experiências associadas ao umami, conhecido como o quinto gosto básico do paladar.
Entre os entrevistados, 38,2% demonstraram interesse por sabores defumados, 35,9% por combinações agridoces e 23,7% por preparos picantes.
O dado não significa que pratos tradicionais estejam perdendo espaço. Pelo contrário: a maior curiosidade pode ampliar o repertório sem eliminar aquilo que já é familiar.
Para os restaurantes, isso abre espaço para inovação menos radical. Um produto conhecido pode incorporar uma técnica, ingrediente ou contraste diferente sem exigir que o consumidor abandone completamente suas referências.
Fermentados, caldos mais concentrados, ingredientes defumados, molhos agridoces e combinações inspiradas em cozinhas asiáticas são alguns exemplos dessa aproximação.
O viral deixou de ser apenas entretenimento
As redes sociais passaram a interferir diretamente na demanda por determinados produtos.
O estudo cita o caso do morango do amor, cujos pedidos cresceram 2.300% em 2025 na comparação com o ano anterior. Já em 2026, a busca por “bolo pudim” aumentou cerca de 128%. Segundo os dados divulgados, um conteúdo viral pode provocar aumento de até 35% nos pedidos de determinada categoria dentro de um único mês.
A velocidade desse fenômeno cria oportunidades e riscos.
Para confeitarias, padarias, cafeterias e restaurantes, acompanhar um viral pode trazer tráfego rapidamente. O problema aparece quando toda tendência é incorporada ao cardápio como se fosse permanente.
Um produto popular durante algumas semanas pode exigir ingrediente específico, espaço de estoque, treinamento e novas embalagens. Se o interesse desaparecer rapidamente, a operação fica com a complexidade e perde a demanda.
Nesse contexto, lançamentos temporários, edições limitadas ou testes podem funcionar melhor do que mudanças permanentes no menu.
Eventos também reorganizam o consumo
Outro dado interessante está na relação entre alimentação e calendário cultural.
Quase metade dos consumidores pesquisados, 48%, afirmou já ter feito pedidos durante partidas de futebol. Datas comemorativas e Ano-Novo aparecem com 30%, finais de novelas ou séries com 24%, reality shows com 21% e shows ou festivais com 19%.
O comportamento mostra que restaurantes não disputam consumo apenas por horário ou dia da semana. Eles também podem se posicionar ao redor de momentos coletivos.
A Copa do Mundo de 2026 já deu um exemplo desse potencial: na estreia da seleção brasileira, as vendas de bebidas pelo iFood cresceram 63% em relação ao sábado anterior, enquanto pedidos em mercados avançaram mais de 8%.
Para operações de alimentação, eventos desse tipo podem influenciar cardápio, tamanho de porção, combos, estoque e comunicação.
O premium também chegou ao delivery
O estudo identifica ainda maior procura por produtos percebidos como sofisticados em situações cotidianas.
Entre restaurantes parceiros consultados, 36% registraram aumento da demanda por opções mais premium. Para 53% dos consumidores, essa percepção está relacionada principalmente ao uso de ingredientes especiais; 26% associam o conceito a chefs ou restaurantes renomados, e 18% à embalagem diferenciada. O aspecto visual do prato também foi citado por 49% dos entrevistados.
É uma mudança importante porque desloca a ideia de premium de ocasiões raras para pequenos momentos de consumo.
Isso pode significar pagar um pouco mais por um ingrediente, uma apresentação melhor, uma receita autoral ou uma embalagem que preserve adequadamente o produto.
No delivery, a experiência premium precisa sobreviver ao transporte. Não basta que o alimento pareça sofisticado na fotografia do aplicativo; embalagem, temperatura e apresentação precisam confirmar a promessa quando o pedido chega.
Sabores regionais ganham alcance
O relatório também aponta curiosidade significativa em relação às cozinhas regionais brasileiras.
Mais da metade dos entrevistados que nunca provaram barreado demonstram interesse em experimentar o prato. A mesma tendência aparece com tacacá e pato no tucupi. Ao mesmo tempo, buscas por diferentes culinárias cresceram dentro do aplicativo entre 2024 e 2025, incluindo asiática, francesa, baiana, tailandesa, nordestina e árabe.
Esse movimento favorece tanto restaurantes especializados quanto operações que trabalham ingredientes e referências locais dentro de propostas contemporâneas.
O delivery, nesse caso, funciona como uma espécie de porta de entrada gastronômica. O consumidor não precisa viajar nem frequentar um restaurante altamente especializado para experimentar algo novo pela primeira vez.
A IA sai do marketing e entra na cozinha
A inteligência artificial aparece como outro eixo do estudo, mas com uma diferença em relação à primeira onda de adoção.
Em vez de ficar restrita à produção de textos, imagens ou atendimento, a tecnologia começa a ser associada a previsão de demanda, controle de estoque, redução de desperdício e automação operacional.
O relatório aponta que o uso cotidiano de IA entre brasileiros chegou a 75% em 2025, contra 54% no ano anterior.
Para o foodservice, o potencial mais relevante pode estar justamente nessa camada menos visível. Um sistema que ajuda a prever demanda ou identificar padrões de venda pode produzir impacto financeiro maior do que uma ferramenta utilizada apenas para criar conteúdo.
A questão, porém, continua sendo a qualidade dos dados. Sem estoque organizado, fichas técnicas, registros consistentes e sistemas minimamente integrados, qualquer inteligência aplicada sobre a operação terá uma base frágil.
Tendência só importa quando encontra o negócio
O relatório do iFood e da WGSN traz sinais importantes, mas não funciona como uma lista de coisas que todo restaurante deveria adotar.
Umami pode fazer sentido para uma operação e ser irrelevante para outra. Um produto viral pode gerar vendas durante duas semanas e desaparecer. IA pode economizar horas de trabalho em um negócio estruturado ou apenas adicionar mais uma ferramenta pouco utilizada a outro.
A principal leitura talvez esteja na velocidade com que o consumidor combina referências diferentes.
Ele continua buscando preço e conveniência, mas também quer novidade. Pode reduzir a frequência de consumo e, ainda assim, pagar mais por uma experiência específica. Pode procurar comida regional por meio de uma plataforma digital e descobrir um produto por causa de um vídeo de poucos segundos.
Para as marcas de foodservice, acompanhar tendências continua importante. Mais importante ainda é saber quais delas ajudam a tornar a proposta do negócio mais relevante para o consumidor que realmente se deseja atender.


