Gestão

Fim da escala 6×1 exige reorganização de equipes no foodservice

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Ampliação do descanso e redução gradual da jornada colocam em pauta custos, contratação e distribuição dos turnos em bares e restaurantes

A promulgação da Emenda Constitucional 141/2026 pelo Congresso Nacional, realizada em 16 de outubro de 2026, marca uma transformação profunda nas relações de trabalho do país. A nova legislação amplia o descanso semanal remunerado para dois dias e estabelece a redução gradual da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários. Para o setor de foodservice, composto por bares, restaurantes e negócios de alimentação, o desafio imediato consiste em conciliar a nova realidade trabalhista com a dinâmica de atendimento e os horários de pico.

A adaptação operacional afeta diferentes modelos de negócios de maneiras distintas. Enquanto restaurantes focados no almoço, pizzarias com picos de demanda noturna e estabelecimentos abertos diariamente precisam recalcular o dimensionamento de suas equipes por turno, a gestão deve lembrar que o horário de funcionamento da casa é uma dimensão separada da jornada individual do colaborador. Manter as portas abertas com eficiência dependerá exclusivamente de como cada empresa reorganizará suas escalas dentro do novo marco legal.

Como funcionará a transição

O texto promulgado define um cronograma dividido em duas etapas fundamentais a partir da publicação oficial:

  • Primeira etapa (dois meses após a publicação): O limite da jornada semanal cai para 42 horas e entra em vigor a ampliação obrigatória do repouso remunerado para dois dias.
  • Segunda etapa (um ano após o início da primeira redução): A jornada máxima atinge o patamar definitivo de 40 horas semanais.

Além disso, a emenda prevê a possibilidade excepcional de regimes compensatórios estabelecidos por convenção ou acordo coletivo. Nesses casos, a média de dois dias de descanso por semana deve ser estritamente preservada dentro do mês-calendário, garantindo pelo menos uma folga a cada período máximo de uma semana de trabalho.

Impacto nos custos e projeções do setor

A repercussão econômica da medida mobiliza entidades patronais e de classe. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) divulgou um guia de orientação estimando que a mudança poderá elevar em até 20% o custo com pessoal no setor, recomendando que os empresários levantem seus dados internos e dialoguem com os sindicatos e assessores jurídicos. Trata-se de uma projeção institucional e não de um acréscimo generalizado já consolidado.

Para contextualizar o debate macroeconômico, um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em fevereiro de 2026 calculou que a adoção de uma jornada de 40 horas elevaria em 7,84% o custo médio do trabalho celetista, embora o indicador reflita uma média agregada de várias atividades e não uma exclusividade do setor de alimentação.

Especialistas lembram que um incremento na folha de pagamento não se traduz automaticamente em uma alta equivalente no preço dos pratos do cardápio. O reflexo final nos preços depende diretamente da participação da despesa de pessoal no orçamento total do negócio, da margem de lucro e da capacidade de reorganização interna de cada operação.

Desafios na contratação e condições de trabalho

O setor de alimentação já enfrentava um cenário adverso de escassez de mão de obra antes mesmo da alteração constitucional. Uma pesquisa da Abrasel realizada em março de 2025 apontava que 90% dos empresários consideravam difícil ou muito difícil preencher vagas no segmento. Entre os principais entraves figuravam a falta de profissionais qualificados (64%), a escassez de interessados (61%) e a baixa atratividade dos horários praticados (33%).

Com a transição para a escala 5×2, a expectativa é que o aumento do tempo de descanso torne as vagas do setor mais atraentes para os profissionais, embora os efeitos práticos precisem ser avaliados no dia a dia das empresas. Por sua vez, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) avalia a redução da jornada como um avanço importante nas condições de labor, destacando o papel estratégico da negociação coletiva e reconhecendo que operações contínuas precisarão redimensionar equipes para manter a prestação de serviços.

Produtividade e perspectivas

No cotidiano das cozinhas e salões, a sustentabilidade da operação dependerá da eliminação de gargalos e desperdícios de tempo. A otimização de pedidos, o planejamento prévio do pré-preparo e a distribuição inteligente de tarefas ajudam a mitigar o retrabalho. Contudo, tais melhorias administrativas não eliminam a necessidade de contar com equipes completas de cozinheiros e atendentes nos horários de maior fluxo de clientes.

O cenário exige que os gestores do foodservice realizem um diagnóstico detalhado que inclua o mapeamento de fluxo por dia e turno, controle de horas extras, índice de absenteísmo, rotatividade e custos com treinamentos. Acompanhar de perto a regulamentação complementar e a evolução das negociações coletivas será determinante para atravessar o período de transição preservando a viabilidade financeira dos negócios e a qualidade do atendimento.