Coluna · Opinião

Sachê ou bisnaga?

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Segurança alimentar de um lado, sustentabilidade do outro. Duas preocupações legítimas que parecem apontar para caminhos opostos.

A partir de 4 de outubro de 2026, entra em vigor em São Paulo a Portaria CVS nº 3/2026, que determina que condimentos, molhos e temperos destinados a sanduíches, salgados e similares sejam oferecidos em embalagens individuais de uso único.

Na prática, as tradicionais bisnagas compartilhadas de ketchup, mostarda e maionese dão lugar principalmente aos sachês.

A justificativa é sanitária: reduzir os riscos relacionados à manipulação coletiva e à possível contaminação dos alimentos.

Até aí, a lógica parece clara. O curioso é olhar para o que acontece na Europa.

Enquanto São Paulo incentiva embalagens individuais por uma questão de segurança alimentar, a União Europeia segue justamente no sentido de reduzir embalagens plásticas de uso único, incluindo restrições a pequenas embalagens individuais utilizadas por hotéis, restaurantes e cafés.

Então surge a pergunta: quem está certo?

Talvez os dois. Ou talvez estejamos tentando resolver problemas diferentes com soluções que acabam criando novas dificuldades.

Não encontrei dados oficiais que indiquem quantas pessoas foram internadas em São Paulo especificamente por contaminação causada por bisnagas de condimentos. Isso não significa que o risco não exista: normas sanitárias também trabalham com prevenção.

Por outro lado, vale perguntar qual será o impacto ambiental da mudança.

Uma única bisnaga pode atender dezenas de clientes. Com os sachês, cada utilização significa uma nova embalagem descartada. Multiplique dois ou três sachês por consumidor por milhões de refeições e teremos uma quantidade considerável de resíduos adicionais.

A situação chama ainda mais atenção porque São Paulo já adotou medidas para reduzir outros plásticos descartáveis, como os canudos.

E há outra questão prática: os sachês normalmente ficam em caixas ou recipientes sobre as mesas. Vários clientes mexem nas embalagens antes de escolher a sua. O alimento está protegido, mas a embalagem externa continua sendo manipulada coletivamente.

Talvez, portanto, a discussão não devesse ser simplesmente bisnaga ou sachê.

Dispensers fechados e higienizáveis, sistemas de dosagem sem contato, porções individuais servidas pelo estabelecimento e novas embalagens de menor impacto ambiental podem representar um terceiro caminho.

A segurança alimentar é fundamental. A sustentabilidade também.

Enquanto isso, aos estabelecimentos paulistas cabe se adaptar e cumprir a nova regulamentação.

Mas fica uma pergunta para o setor de food service:

se em um lugar o sachê é tratado como solução e em outro começa a ser tratado como problema, será que não está na hora de procurarmos uma terceira alternativa?

Jairo Klapp
Sobre quem assina

Jairo Klapp

Colunista FoodNews

Atua há mais de 20 anos no desenvolvimento de negócios ligados ao foodservice, com experiência em gestão, operação, eventos e estruturação de projetos do setor. Acompanha de perto os desafios enfrentados por empresários na…