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O problema não é copiar o concorrente. É começar a pensar como ele.

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Observar concorrentes faz parte de qualquer negócio. No foodservice, isso acontece de forma especialmente intensa porque quase tudo está visível: cardápios, lojas, promoções, comunicação, produtos, formatos de operação. Não é difícil descobrir o que outras empresas estão fazendo.

Essa proximidade é útil. Ela ajuda a perceber movimentos do mercado, acompanhar mudanças de comportamento e identificar soluções que parecem funcionar. O problema começa quando aquilo que vemos fora do negócio passa a pesar mais do que os critérios que deveriam orientar as decisões dentro dele.

É comum uma empresa olhar para uma referência bem-sucedida e tentar entender o que pode aproveitar dali. Isso, por si só, não é um problema. O risco está em assumir que aquilo que funciona em outro negócio funciona pelas razões mais visíveis.

Uma promoção pode parecer responsável por um aumento de vendas, quando talvez dependa de uma frequência de compra já consolidada. Um produto pode chamar atenção pelo formato, mas seu desempenho pode estar ligado a uma marca construída ao longo do tempo. Uma loja pode ser admirada pelo projeto, enquanto o resultado econômico vem de fatores que não aparecem na fotografia.

Quando observamos apenas a superfície, corremos o risco de reproduzir a manifestação de uma estratégia sem compreender o que a sustenta.

Talvez seja por isso que alguns mercados comecem, depois de algum tempo, a desenvolver uma linguagem muito parecida. As mesmas referências circulam entre empresários, fornecedores, agências, arquitetos e equipes de marketing. Alguns casos se tornam exemplos recorrentes de sucesso e passam a orientar novos projetos.

A semelhança, então, nem sempre nasce de uma cópia direta. Muitas vezes, ela surge porque empresas diferentes estão aprendendo com as mesmas fontes.

Isso aparece na estética, no produto, na comunicação e até na estratégia. Certos códigos ficam tão associados a uma categoria que deixam de parecer escolhas e passam a ser tratados como se fossem parte obrigatória dela.

Esse processo não é necessariamente ruim. Mercados também evoluem por adaptação, imitação e aprendizado coletivo. Muitas soluções deixam de ser diferenciais justamente porque funcionam e, com o tempo, tornam-se padrão.

A questão muda quando acompanhar o padrão se torna mais importante do que entender a própria posição.

Em algum momento, uma empresa pode começar a tomar decisões não porque elas resolvem um problema real do negócio, mas porque correspondem ao que se espera de quem atua naquele segmento. A referência deixa de servir como insumo e vira validação.

É aí que o benchmarking pode perder parte do seu valor.

Observar o mercado deveria ajudar a ampliar repertório, testar hipóteses e enxergar possibilidades. Mas, sem clareza sobre o que o próprio negócio está tentando construir, essa observação pode encurtar demais o caminho entre ver e decidir.

Isso também não significa que tudo precise ser diferente. Há códigos de categoria que ajudam o cliente a reconhecer o que está diante dele, práticas que já se provaram eficazes e soluções que não precisam ser reinventadas apenas para demonstrar originalidade.

Talvez a discussão sobre diferenciação fique mais útil quando deixa de perguntar “como podemos ser diferentes?” e começa a perguntar “quais decisões realmente precisam ser nossas?”.

Essa distinção é importante porque uma empresa pode acompanhar tendências, adotar boas práticas e aprender com concorrentes sem necessariamente permitir que o mercado defina seus critérios.

Acontece que, quando muitas empresas respondem aos mesmos estímulos, elas também passam a competir dentro das mesmas regras. Se todos disputam variedade, aumenta-se a variedade. Se todos competem por lançamentos, acelera-se o ritmo. Se determinado formato vira referência, sua ausência logo soa como desvantagem.

Aos poucos, o mercado não apenas influencia as decisões. Ele começa a definir quais decisões parecem possíveis.

Talvez esse seja o ponto em que a diferenciação deixa de ser uma discussão sobre criatividade e passa a ser uma discussão sobre clareza.

Concorrentes continuam sendo fontes valiosas de informação. Referências continuam sendo úteis. O desafio está em saber o que fazemos com elas depois de olhar.

Uma boa referência não deveria entregar uma resposta pronta. Deveria ajudar a formular uma pergunta melhor sobre o próprio negócio.

Porque acompanhar o mercado pode ser necessário para continuar relevante. Mas, quando boa parte das nossas decisões passa a ser explicada principalmente pelo que os outros estão fazendo, talvez valha perguntar se ainda estamos usando o mercado como referência — ou se já começamos a deixar que ele escolha por nós.

Lisyê Zadorosny
Sobre quem assina

Lisyê Zadorosny

Colunista FoodNews

Atua nas áreas de marketing, branding e comunicação, com experiência no desenvolvimento de marcas, projetos e estratégias voltadas especialmente ao foodservice e ao mercado de eventos. À frente da GKZ, acompanha de perto os…